Debilidade Mental e Clínica Psicanalítica
Daniele Rosa Sanches
O termo Debilidade
Mental vem da psiquiatria clássica e é o conceito utilizado para designar a
pessoa que apresenta um déficit na capacidade intelectual. O déficit é
classificado desde a categoria limítrofe até o chamado retardo mental profundo.
Pode ter uma etiologia orgânica e nestes casos chamam-se “débeis caracteriais”.
Quando o déficit está classificado como leve ou moderado “uma etiologia
orgânica raramente é identificada. Este é o grupo mais freqüente (...)
compreendendo 85% de todos os casos (Dalgalarrondo, pg 175, 2000)”. Este é o
terreno que apresenta a debilidade mental em questão no presente trabalho, que
será abordada como uma condição cuja manifestação vai muito além do déficit
intelectual.
É certo que a
delimitação do conceito de debilidade mental, sua etiologia e aplicação teve um
desenvolvimento que acompanhou as modificações conceituais da psiquiatria ao
longo dos tempos.
A escuta clínica de
sujeitos que apresentam debilidade mental faz suscitar muitas dificuldades,
sendo que a primeira e a principal delas é a dúvida diagnóstica. Mas também,
esta clínica permite o levantamento de algumas hipóteses sobre as condições
simbólicas presentes nos fundamentos da debilidade mental num sujeito.
Hipóteses que, em geral, localizam na relação primordial “mãe-bebê” o cerne do
fundamento psíquico da debilidade mental. Uma vez apresentadas suas
possibilidades constituintes, faz-se uma tentativa de localização da debilidade
mental no acervo metapsicológico existente: seria sintoma? estrutura? defesa?
São algumas das questões levantadas pela clínica psicanalítica.
Mesmo que nenhuma destas questões
fosse elaborada, a grande contribuição da psicanálise ao estudo da debilidade
mental será sempre válida: antes pela psiquiatria, de diferentes formas sempre
se referiu a uma fraqueza de pensamento, fazendo do componente quantitativo seu
principal determinante, como visto nas escalas métricas de inteligência; com
Mannoni (1964) a psicanálise deu um salto na concepção da debilidade mental, postulando
que, independentemente de ter uma etiologia orgânica ou não, é fato que a
debilidade tem um sentido para o sujeito e é este sentido que deve ser digno de
ser escutado.
“Se a debilidade for concebida apenas como um déficit
capacitário ela isola o sujeito em sua deficiência. Procurando para a
debilidade uma causa definida nega-se que ela possa ter um sentido, quer dizer
uma história, ou que ela possa corresponder a uma situação (Mannoni, 1964, p.
39)”.
Mas, ao dizer seja
qual for a causa, a debilidade pode ser dotada de um sentido então se caminhou
para conferir à debilidade o status de sintoma, tal como o é concebido na
psicanálise, desde Freud. Nos fundamentos da psicanálise, a principal
descoberta freudiana foi que o sintoma tem um sentido. As histéricas ensinaram
Freud, que aos seus sintomas caberia um sentido de existência. Desde então, o
sintoma passou a ser concebido como uma resolução inconsciente de um conflito,
conflito este que não teria outro modo de conciliar-se, senão pela formação de
um sintoma, que o represente psiquicamente.
Ora, por esta
retomada notamos que, a maneira de Mannoni apresentar-nos a debilidade carregou
consigo muitas características da concepção freudiana sobre o sintoma. Aqui
está, em princípio, configurada a primeira pergunta: é válida esta conexão da
debilidade com o sintoma? Se não é, como localizar a debilidade mental no
acervo metapsicológico? Para chegarmos a uma resposta que invalide ou valide a
analalogia Debilidade Mental e Sintoma é preciso recorrer às principais teses
sobre os fundamentos da debilidade mental num sujeito.
Em Mannoni
encontra-se uma tese prínceps para a concepção da debilidade: Para Mannoni
(1964) a Debilidade Mental seria o efeito de um dizer parental produtor de uma
fusão, ao nível corpóreo, na relação dual (mãe-criança). Por este raciocínio,
Mannoni estabelece uma relação íntima entre o fantasma materno e o
desenvolvimento da debilidade mental numa criança e é clara ao defender isto:
“Qualquer estudo da criança débil ficará incompleto
enquanto o sentido da debilidade não for procurado primeiro na mãe (Mannoni,
1964, p.58)”.
Estas idéias de
Mannoni são publicadas no ano de 1964, no livro “A Criança Retardada e a Mãe
(1999)”. No seminário que Lacan realiza no mesmo ano, ele faz sua primeira
contribuição teórica sobre a debilidade, dizendo:
“É na medida em que, por exemplo, a criança débil toma
o lugar em relação a esse algo (...), que a mãe a reduz, a não ser mais do que,
o suporte de seu desejo, num termo obscuro, que se introduz na educação do
débil a dimensão do psicótico. É precisamente o que nossa colega Maud Mannoni,
num livro que acaba de sair e cuja leitura lhes recomendo, tenta designar
àqueles que, de um modo qualquer, podem ser comissionados a levantar sua
hipoteca.
É certamente algo da mesma ordem do que se trata na
psicose”.
(Lacan, p. 223, 1964).
O que seria, na
debilidade, da mesma ordem de que se trata na psicose? Com esta questão,
abre-se novo campo, além do sintoma, para a tentativa de locar a debilidade na
clínica psicanalítica. Se é algo da mesma ordem que se trata na psicose,
qualquer estudo sobre debilidade vê-se obrigado a estudar suas semelhanças e
diferenças com a psicose. E este foi especialmente o foco de elaboração de
Lacan: em que se assemelha e se diferencia o débil do psicótico?
O estudo de Miranda
(2002) aborda e responde esta mesma questão: o que é da mesma ordem no débil e
no psicótico?
“De acordo com a citação de Lacan encontramos o
sujeito reduzido a ser tão só o suporte do desejo da mãe num termo obscuro,
tanto na psicose, como no fenômeno psicossomático ou na debilidade. Existe um
ponto em comum nessas três posições que o
sujeito pode vir a ocupar: a holófrase.(Miranda,p.34 2002)”.
Desta resposta,
dois pontos merecem melhor esclarecimento. Primeiro, o que viria a ser o desejo
num termo obscuro? A elaboração de Santiago (2005), traduz:
“(...)é aquela mãe que deseja pouco, ou mal, enquanto
mulher. Sobressai então a vertente da relação do amor materno, marcada pelo engodo
da anulação da falta da mulher enquanto tal, em que a criança se confunde com
um objeto que teria o mesmo estatuto do objeto fetiche, ao denegar a castração
da mãe (Santiago, p.160, 2005).”
Também em auxílio do entendimento Miranda
(2002) contribui:
“Interpretamos o desejo em um termo obscuro como
aquele que podendo ter uma referencia fálica esta se apresenta turva de modo
que não é possível ao Outro situar o falo como falta (Miranda,p.34,2002)”.
Segundo ponto, a
holófrase: de acordo com Santiago (2005) a figura gramatical da holófrase
designa uma frase que se exprime por uma única locução, ou seja uma frase em
que sujeito, verbo e complemento são aglutinados de tal maneira que ficam
reduzidos a uma só palavra.
Mesmo com a
descoberta daquilo que é da mesma ordem, sabe-se que há diferença nos efeitos
da holófrase no débil e no psicótico:
Na psicose o
efeito da holófrase do par S1-S2 é a certeza psicótica.
Na debilidade
mental o efeito da holófrase do par S1-S2 é a “posição do sujeito radicalmente submetido à demanda do Outro, tomada
no sentido literal (Miranda, p. 35, 2002)”.
Os fenômenos
resultantes dessa posição subjetiva do débil submisso à identificação ao objeto
da falta no Outro são constatados na sua produção discursiva. “o débil de maneira caricatural, repete os
enunciados dos outros para falar de si mesmo (Santiago, p.166, 2005)”. Eis
alguns exemplos:
Recorte do Caso
Elizabete.
Elizabete, 14
anos. Chegou ao atendimento clínico a pedido do colégio em que estudava, pois a
menina além de ser um “verdadeiro fracasso em termos pedagógicos”, nas palavras
das professoras, também apresentava muitos comportamentos agressivos,
machucando por vezes seus colegas de sala, que devido à diferença de idade eram
muito menores, portanto indefesos quanto aos seus ataques. Elizabete cursava a
terceira série regular e deveria naquele ano repetir novamente.
O fracasso
pedagógico que sempre acompanhou a menina era motivo de queixas de todos os
colégios em que Elizabete estudou. Todos eles do ensino regular. A mãe, por
aconselhamento dos colégios, já havia realizado exames neurológicos em
Elizabete, para encontrar algum fundamento orgânico para sua dificuldade
escolar, mas nada era encontrado. Os psiquiatras apenas identificavam um atraso
de três anos em termos de seu desenvolvimento intelectual, sem etiologia
definida. Ultimamente a dificuldade escolar de Elizabete perdera campo de
atenções para seu comportamento agressivo que era, o principal motivo de
encaminhamento para psicoterapia da menina.
Elizabete era uma
menina bonita, porém com as expressões faciais debilizadas. Tinha um
desenvolvimento normal do corpo, mas trejeitos infantilizados. Ficou em
atendimento por 1 ano e meio, ao final deste período tanto sua agressividade
teve uma melhora significativa, mas seu desempenho escolar somente o mínimo
suficiente para que não reprovasse novamente de ano, isto com a “ajuda das
professoras, disse a diretora”.
Neste um ano e
meio de atendimento de Elizabete, alguns pontos de sua fala chamavam muito a
atenção. Um deles era o uso exagerado de ditados populares ela os dizia com
muita freqüência, mas sua pronúncia era distorcida efeita de forma que o ditado
parecesse uma só palavra, tais como “vocênum ispedediispera” (você não perde
por esperar); “sopassandicimadomeucadaver” (só passando por cima do meu
cadáver), etc. Ela utilizava estes ditados em contextos adequados, no primeiro
caso quando estava brava com alguém, no segundo caso quando por exemplo não
queria sair do seu quarto;mas a despeito do uso adequado do ditado no contexto
Elizabete desconhecia o significado
daquelas palavras que compunham o ditado, por exemplo, quando interrogada, não
sabia o que era um cadáver ou sequer sabia que eram palavras separadas. Para
ela o ditado era um. Como se fosse uma interjeição.
Da mesma forma ela
dizia que queria ser
“advogadacriminalística”. Elizabete nadasabia que eram palavras separadas e que
o criminal designaria um tipo de área de atuação de um advogado. Para ela
advogada, era “advogadacriminalística”. De forma análoga, toda vez que
Elizabete me dava algum desenho seu ou algum bilhete que mandava para as
amigas, sempre estava assinado por ela como “ElizabeteTailor”. Sua escrita não
deixava claro se ela separava bem os dois nomes, mas de fato quando questionada
sobre o porque de assinar Tailor, junto ao seu nome ela não sabia responder.
Apenas sabia que Tailor vinha do nome Elizabete, desconhecendo completamente
que era o neome e sobrenome de uma outra pessoa.
Além destas
manifestações discursivas, que talvez demonstrem a expressão clínica do
fenômeno da holófrase outros aspectos de sua fala também chamavam a atenção,
principalmente a confusão de personagens que fazia ao contar uma história, por
exemplo: Elizabete tinha uma vizinha japonesa que era sua colega de escola e a
mãe desta japonesinha era colega da própria mãe de Elizabete, segue-se o modelo
se sua fala: “Eu fui para escola com a japonesa, ela estuda na mesma sala que
eu, no final da aula o marido da japonesa foi buscar”. “Eu tenho dois amigos
gêmeos, eu gosto do o loiro, ele é mais bonito, minha mãe sempre gostou do
loiro e eu do moreno”.
Estes são exemplos
do discurso de Elizabete, como afirmou Santiago aparecem de forma caricaturada.
Mas uma situação talvez ilustre melhor de que tipo de fenômeno se trata a
posição do sujeito: certa vez ficou combinado no atendimento, que eu ligaria
para Elizabete, para confirmar se na próxima semana haveria sessão ou não, pois
a clínica estava passando por reformas. Foi Elizabete quem atendeu o telefone,
eu me identifiquei, retomei a situação combinada e disse que no dia especifico
não poderíamos ter o atendimento, mas que haveria a possibilidade de atendê-la
no mesmo horário em outro dia e perguntei se ela poderia vir. Escutei somente o
barulho de telefone caindo ao chão e daqui a alguns minutos vem a mãe na linha:
alô? Oi a Elizabete me disse que era você, pode falar. Houve toda essa troca
(filha-mãe) sem qualquer mediação simbólica, Elizabete havia apenas largado o
telefone, como se a ligação fosse para a mãe. O que foi requisitado à Elizabete
responder era impossível, ela estava radical e literalmente submetida à demanda
do Outro.
São dados que
evidenciam a maneira particular com que o débil faz uso de seu discurso, os
efeitos da holófrase nele e principlamente sua posição de submissão à demanda
do Outro, no caso de Elizabete, a mãe.
Retomando a construção de Miranda
(2002) com Lacan temos que: o ponto em comum tanto para a psicose quanto para a
debilidade mental é a holófrase do par S1-S2. Mas, como visto, há uma diferença
de efeito da holófrase, na psicose e na debilidade mental, então deve haver uma
condição a priori, que funde tal diferença. E de fato:
Na psicose esta
holófrase se dá pela não operação da metáfora paterna.
Na debilidade a
holófrase se dá por estar o sujeito determinado como objeto a do fantasma materno e por ser confrontado a um desejo num
termo obscuro.
Estes
esclarecimentos sobre os fundamentos da holófrase na psicose e na debilidade
são úteis, apenas na sua qualidade de diferenciação; pois a questão que se coloca
desde esta descoberta é: uma vez que, na psicose a holófrase se dá pela não
operação da metáfora paterna e esta não operação determina uma estrutura _ a
estrutura psicótica_ então, que tipo de fenômeno a holófrase que se dá por
estar o sujeito radicalmente submetido à demanda do outro fundaria? Sabemos,
funda a debilidade. Mas teria ela o estatuto de estrutura, tal como é fundada a
psicose?
De acordo com os
relatos de Mannoni (1964), não. Muito pelo contrário, se por um lado, o trabalho
de Lacan foi estudar os limiares da debilidade e da psicose, Mannoni evidenciou
as mais diversas conexões da debilidade com a perversão, com a neurose e
psicose:
“Ao
estudar o sentido que o retardamento pode ter para uma criança débil,
descobrem-se situações que lembram estranhamente as que observamos em famílias
de psicóticos e perversos (Mannoni, 1964, p. 27)”.
“(...) a debilidade encobrirá traços psicóticos ou de
uma neurose obsessiva grave? Essa é a pergunta que um analista é freqüentemente
levado a fazer (...) (Mannoni, 1964, p.47)”
“(...) debilidade e psicose se juntam _ e por isso é
importante na condução do tratamento receber (...) a mensagem dos pais e dos
filhos (Mannoni, 1964, p. 54)”
“Uma análise de um sujeito débil vai ajudá-lo a
assumir no tratamento a sua própria história (...) realizando assim, na sua
neurose o sentido fantasmático que ele pôde ao nascer, assumir para a mãe
(Mannoni, 1964, p. 59)”.
A autora entende
por vezes que a debilidade encobre, de maneira muito funcional, uma estrutura
neurótica, a qual se valeria da condição débil como qualquer neurótico se vale
do seu sintoma. No entanto, por toda sua obra ela faz uma comparação estrita
entre debilidade, psicose e perversão, principalmente ao se referir às
dinâmicas psíquicas e condições propícias que seriam praticamente as mesmas
presentes, tanto para o desenvolvimento de um psicótico, quanto de um perverso
e de um débil.
Tudo isto só faz
validar as questões pertinentes ao enquadre da debilidade mental na
metapsicologia. A descoberta do fundamento holofrásico fez ficar mais distante
a analogia com o sintoma, já que a determinação da holófrase é uma operação que
se dá nos primórdios da constituição psíquica do sujeito, que supõe antes de
sua possibilidade de formação de compromisso para resolução de um conflito,
definição por excelência do sintoma. Esta também é a conclusão do estudo de
Miranda, sobre a debilidade mental:
“(...) logo a
debilidade também não é sintoma; ela está na ordem do fenômeno, como último
recurso antes do desvelamento da estrutura (...). Pensamos a debilidade mental
como a posição do sujeito determinada por uma corporeidade imaginária que teria
a função de mascarar a estrutura, seja ela qual for, evitando seus efeitos.”
(Miranda, p. 24, 2002, dissertação de
mestrado na UERJ, não publicada).
Mas, se esta
definição para a debilidade mental exclui de maneira clara a hipótese de
sintoma, nem tão clara é a hipótese que a substitui: “Mascarar a estrutura
evitando seus efeitos”. Ora, mascarar a estrutura é o principal aspecto
observado na clínica da debilidade mental, ou seja, a primeira questão que vem
ao analista diante destes sujeitos é a dúvida diagnóstica, indicando a
propriedade com que a debilidade mascara a estrutura. Mas, para quê? A resposta
desde esta perspectiva seria, para evitar seus efeitos. Sendo assim, desde
Freud, tudo o que no psiquismo se dá com a função de evitar algo, é entendido
como defesa. Eis aí, mais uma porta que
se abre na tentativa de construir uma elaboração metapsicológica sobre o tipo
de fenômeno que está em jogo, quando se funda a debilidade mental.
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Santiago, Ana
Lydia “A inibição intelectual na Psicanálise”, Jorge Zahar, Rio de Janeiro-RJ,
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