Introdução
Na
atualidade, está havendo aumento da freqüência de quadros clínicos onde nos
deparamos com um sujeito que apresenta uma problemática marcada por atuações e
passagens ao ato que convocam principalmente o corpo em detrimento da
representação. Encontramos hoje na clínica um número significativo de quadros
psicopatológicos diversos daqueles das “neuroses clássicas”. Trata-se de casos
caracterizados por forte empobrecimento da fantasia, que resistem, de certa
forma, à técnica da associação livre, com ausência de um delineamento claro do
sintoma e que apelam a mecanismos compulsivos.
Estes padecimentos psíquicos não
seriam inéditos, mas estariam assumindo no cenário contemporâneo um lugar de
destaque; afinal esses sujeitos vêm sendo objeto de estudo nas últimas décadas,
então denominados como “casos difíceis”. Desta maneira, a psicanálise vem sendo
convocada a tomar como objeto de investigação o significativo incremento da
freqüência de “casos difíceis”, de patologias psicossomáticas e adicções, bem
como outros quadros que envolvem uma dimensão compulsiva e disruptiva. São
sujeitos que apresentam uma diferente configuração na clínica, com predominante
esvaziamento de sua interioridade, com tendência a atuações, e resistentes ao
método de intervenção concebido por Freud, casos estes que vêm sendo trabalhados
majoritariamente no campo de estudo dos estados limites, em cuja categoria
podemos englobar diversas configurações clínicas, entre elas a adicção.
Iremos apresentar, em linhas gerais,
alguns aspectos de nossa Tese de Doutorado, dedicada ao estudo
da adicção, patologia dos estados limites, em uma análise que procurou
contemplar a psicopatologia, a metapsicologia e a clínica. Esse quadro clínico
apresenta-se de maneira insistente no contemporâneo, onde observamos um sujeito
que apresenta as mais diversas formas de relacionamento adictivo. Em todas as
variações da adicção, aos mais diversos objetos, destaca-se um modo de
relacionamento compulsivo com um determinado objeto que assume lugar de
prevalência na vida do sujeito, permitindo que se considere a adicção como uma
patologia dos limites e da separação do objeto (JEAMMET, 2000, p. 103).
Iremos aqui destacar a questão do
traumático que se encontra na base de funcionamento e de compreensão dos
mecanismos psíquicos envolvidos na adicção, sublinhando uma paradoxal situação
na qual o sujeito da adicção se encontra, transitando num eixo
atividade/passividade nos planos intra/interpsíquicos. Em seguida vamos nos
voltar para uma breve análise do modo de relação com o objeto, utilizando a
noção de paixão como ferramenta metapsicológica. Vamos então finalmente considerar alguns
aspectos envolvidos na constituição desse modo de relação com o objeto,
originado nas relações primárias, que assume características particulares na
adicção.
A definição da addicão
O termo
“adicção” provém do latim addictu, dos tempos da República Romana que significa
“escravo por dívidas”, denominando o homem que, para pagar uma dívida, se
convertia em escravo por não dispor de outros recursos para cumprir o
compromisso contraído (GURFINKEL, 1995, p. 109). No Dicionário Aurélio adicção
(1996), significa "adicto" – que é na verdade um adjetivo – e diz
respeito a um sujeito: 1.Afeiçoado, dedicado, apegado.
2. Adjunto, adstrito, dependente; ou então 3. Em
medicina é quem não consegue abandonar um hábito nocivo, mormente de álcool e
drogas, por motivos fisiológicos ou psicológicos. Daí viria a
expressão de indivíduo adicto.
Mas queremos precisar que, em nossa
abordagem, a questão não se refere a uma dependência psíquica relacionada apenas
a uma droga e às suas conseqüências físico-químicas. Queremos enfatizar como a
relação com o objeto, com qualquer objeto, pode assumir um papel prevalente no
psiquismo do sujeito adicto, e quando, a partir de então, esse objeto “é como
uma droga, não podemos passar sem” (INGOLD, 1982, p. 52). É a sujeição ao
objeto que ganha ênfase em nossa análise da adicção e, conseqüentemente, os
aspectos envolvidos nessa relação.
Entende-se, desta maneira, que o modo
de relacionamento adictivo pode assumir muitas formas, visto que o objeto da
adicção pode se referir a um objeto tóxico (álcool, drogas), a um objeto a-tóxico (comida, jogo), a uma forma de relacionamento com
uma determinada atividade, a um modo de relação com uma pessoa, etc., adotando,
enfim, as mais variadas configurações.
A dimensão compulsiva da busca do
objeto é uma das principais características da adicção e que aparece de forma
violenta: trata-se de uma relação na qual existe uma escravidão de um sujeito a
um objeto, que possui um caráter “imperativo”, obrigatório,
que domina a relação e compele o sujeito a buscar incessantemente um
mesmo objeto. Destacamos, além do
aspecto de sujeição ao objeto, outra importante característica no quadro da
adicção, que concerne ao estado no qual o sujeito se encontra: entregue ao seu
pulsional excessivo que o submete e o apassiva. Vemos assim que na base de
funcionamento psíquico da adicção encontramos o traumático.
A questão do traumático na adicção
Sabemos como a partir de
determinado momento Freud foi se deparando com fenômenos clínicos que o fizeram
trazer de volta para o centro de sua teorização o trauma, questão que se tornou
fundamental na compreensão do funcionamento subjetivo. A análise de fenômenos
como a reação terapêutica negativa, os sonhos traumáticos, a compulsão à
repetição, entre outros, o levaram a postular a existência de uma pulsão de morte funcionando no aparelho psíquico (1920),
trazendo a figura do trauma, re-significada agora como sendo de origem interna
e pulsional. A partir de então, apresenta-se na teoria freudiana um outro modo
de funcionamento psíquico, além do princípio do prazer, assim como surgem os
limites da representação a partir da força de uma pulsão que não se inscreve no
aparelho psíquico.
Na patologia da adicção o
sujeito se encontra atravessado pelo excesso pulsional transbordante que o
submete a uma violência psíquica advinda de seu próprio pulsional não-ligado,
passividade pulsional que se encontra na base de seu funcionamento psíquico. A
esta precariedade de recursos egóicos corresponde a
utilização de defesas arcaicas, maciçamente evocadas por estes sujeitos. Uma
vez que se encontra em uma radical fragilidade e sem a capacidade de utilizar
recursos egóicos elaborados de defesa, o sujeito faz uso de defesas primitivas
e radicais. Encontramos aí a maciça presença de recursos arcaicos utilizados
pelo sujeito como a passagem ao ato e fenômenos que envolvem uma dimensão
disruptiva e compulsiva, tornando clara a compreensão da denominação da adicção
como patologia do ato.
Estes são aspectos
fundamentais na elucidação da questão dos limites da representação envolvida na
adicção, bem como a correlata presença de um excesso pulsional e toda a problematização decorrente da exposição deste sujeito ao
traumático. Observamos aí o caráter de passividade pulsional que destacamos na
adicção, em um plano intra-psíquico, pelo assujeitamento do ego ao pulsional excessivo, bem como pelo
assujeitamento ao um objeto que se torna obrigatório,
como vimos na própria definição da adicção.
O fenômeno da compulsão à
repetição nos permite analisar o caráter de violenta dominação, da passividade
sob a qual se encontra o sujeito na adicção, com a predominância da pulsão de
morte no psiquismo e com um modo de funcionamento psíquico além do princípio do
prazer. Esse mecanismo vem clarificar esse modo de funcionamento que compele,
escraviza o sujeito e o faz retornar a um mesmo objeto.
Por outro lado, através
desta mesma noção de compulsão à repetição, encontramos o aspecto de atividade
que se encontra presente neste quadro clínico, como uma ação ante o traumático
e como a única possibilidade de reação a esse assujeitamento,
que se daria por meio de uma tentativa de dominação dessa pulsão. Em nossa
compreensão, a compulsão à repetição é uma ação extrema, algo que o sujeito age
para tentar se desfazer do insuportável; é uma tentativa de dominação da força
pulsional.
Entendemos que o fenômeno
da compulsão à repetição, que parece “manifestar-se tanto como um comportamento
ativo quanto como uma experiência passiva” (SANTOS, 2002, p. 102), surge como
uma tentativa por parte do sujeito – dominado na relação absoluta com o objeto
– de assenhorear-se da situação e inverter a situação de servidão, nessa dupla
dimensão de dominar/ser dominado, de ser o senhor/escravo simultaneamente.
Vemos aí um tipo de resposta que o sujeito age na adicção na tentativa de
reverter a violenta passividade pulsional na qual se
encontra, uma tentativa radical do sujeito
re-agir ao inassimilável, uma forma de – na atividade da passagem ao ato, no
ato da adicção – reverter a situação de passividade na qual se encontra,
submerso pelo excesso pulsional, assolado pelo traumático.
A relação de paixão como expressão do
traumático
Mencionamos como a
adicção é considerada uma “patologia da relação”, colocando em relevo a
importância da modalidade da relação de objeto e do papel que o objeto assume
na vida do sujeito da adicção. Cuidadosos em contemplar um estudo da voltado
para a dimensão pulsional, desenvolvemos essa análise tanto do ponto de vista
dinâmico como do econômico e, atentos ao tipo de relação com o objeto na
adicção, utilizaremos a noção de paixão como ferramenta para nos auxiliar na
compreensão da espécie de laço que une o sujeito a apenas um mesmo objeto.
Recorremos à etimologia
para elucidar melhor a noção de paixão e encontramos duas origens para a
palavra: uma grega e outra latina. “Na origem grega, pathos, paixão é associada a algo
assustador e misterioso, que é interno ao homem e o domina. Na origem latina, passione, o homem
é vítima passiva da paixão, mas ela é uma força externa,
recebida sem resistências” (MAPURUNGA, 2003, p. 133). Essas origens, por um lado, reforçam na origem passione a força pulsional ante a qual a assimetria não
permite uma resposta eficiente; por outro lado, evocam em pathos a dimensão do estranho, da
estraneidade – do além do princípio do prazer e da
presença da radical alteridade interna –
e por aludir à passividade quase absoluta na qual o sujeito se encontra ante
esse estranho externo/interno.
Neste modelo de
relacionamento encontramos o caráter de desencontro, de desmedida de
investimento no objeto, característica da paixão, em que se evidencia a
presença do transbordamento psíquico e do assujeitamento
à pulsão: é a própria expressão da absoluta passividade ante um objeto. Uma
paixão mortífera, como denominamos, atravessada pelo pulsional mortífero,
debilitando a capacidade do sujeito da adicção de fazer frente à invasão que o
objeto promove e dele se discriminar.
As relações primárias: a impossibilidade
de separação
Na busca de compreender como que se
constituiria essa relação de paixão com o objeto, que se torna o único possível ao sujeito da adicção, nos voltamos para o
estudo das relações primárias. Encontramos a indicação que essa relação de paixão
tem sua origem nos primórdios da constituição da subjetividade e nos centramos
no pensamento de Joyce McDougall para aprofundar
estes estudos. Embora McDougall desenvolva
notoriamente uma vasta teorização sobre a psicossomática, esta autora traz
também um importante estudo sobre as relações primárias e traz ricas
contribuições para a compreensão do lugar que o objeto assume para sujeito da
adicção.
McDougall
(1989) sustenta que o relacionamento inicial mãe-filho pode ser decisivo para
estabelecer os fundamentos de determinadas modalidades de funcionamento
psíquico, já que a realidade externa mais antiga de um bebê é constituída pelo
inconsciente de sua mãe, por sua vez, estruturado, em grande parte, por seus
próprios pais e suas próprias experiências infantis. Nos primeiros meses de
vida, antes mesmo de ter uma representação clara de sua imagem corporal, o bebê
não conseguiria vivenciar seu corpo ou o de sua mãe senão como unidade
indivisível (Id., ibid., p. 11). E nesse momento, em
um tempo arcaico de constituição da subjetividade, faz-se crucial a questão da
discriminação do outro materno, discriminação que depende diretamente da
qualidade da presença dessa mãe, assim como do modo como ela vai conduzir esta
relação.
Joyce McDougall entende que o comportamento adictivo teria origem
principalmente na relação mãe-bebê, quando a mãe sentir-se-ia fusionada ao bebê
e criaria uma relação de dependência do bebê à sua presença como um objeto do
qual não é possível se discriminar. Encontramos aí a relação do sujeito infante
com uma mãe que não foi capaz de desempenhar a sua função materna, dificultando
a constituição do mundo interno da criança, com as representações maternas – e,
mais tarde, paternas – cuidadoras, capazes de conter
e manejar seus estados de sofrimento psíquico.
Para esta autora,
existiria uma falha na internalização da função materna na adicção, uma mãe que
falha em sua função contenedora e estruturante, onde
ela mesma promove um excesso pulsional, em um incremento de excitação para o
qual o sujeito não consegue representação. E é a partir dessa argumentação que McDougall explica que por trás de toda organização
adictiva, encontraríamos a mãe arcaica, a mãe-droga, aquela que não pôde ser
interiorizada de maneira estável pelo infante que buscaria num objeto do mundo
exterior o desempenho do papel do objeto interno, insuficiente em sua função
(Id., 1989, p. 227). Assim, os objetos da adicção
teriam como função preencher a função maternante que
teria falhado, ou melhor, preencher os sujeitos adictos que teriam fracassado
em sua tentativa de introjetar a função materna, decorrente
da falha materna.
Considerações finais
Visamos nesta breve
apresentação destacar alguns aspectos pesquisados em nosso trabalho de
doutorado sobre a relação de paixão que se estabelece na adicção e da
passividade pulsional aí envolvida. Procuramos contemplar a questão do tipo de
relação que se estabelece com um determinado objeto que assume lugar de
prevalência e de primazia na vida do adicto.
Destacamos como a
adicção é uma patologia de relação, atravessada pelo traumático e na qual o
sujeito se vê submetido à violência psíquica advinda do transbordamento de um
pulsional interno não ligado, deixando o ego submetido. Vimos como a esta
fragilidade de recursos egóicos corresponde a
utilização de defesas primitivas e modos precários de resposta que o sujeito
consegue agir. Pudemos assim entender como o mecanismo de compulsão à
repetição, modo característico de funcionamento na adicção, assume um caráter
de resposta, como algo que o sujeito age, uma atividade para fazer face ao
traumático.
Observamos como aí se
estabelece uma relação de paixão, de passividade ante a um objeto ao qual o
sujeito se sente submetido e o qual busca obrigatória e compulsivamente.
Relação esta que se constitui nas relações primárias, em uma relação onde a discriminação sujeito/objeto é precária, decorrente de uma
falha na função - e na introjeção – da função materna. O sujeito se
encontraria, na constituição de sua subjetividade e da relação com o objeto, exposto
ao fracasso da contenção do transbordamento pulsional relacionado à
insuficiência dos cuidados maternos que, nessa violenta falha, deixaria como
saída ao infante a construção de um objeto adictivo,
um objeto de paixão, para fazer face ao traumático. Finalizamos nossas
considerações esperando que estas possam remeter a novas pesquisas e possam
gerar ricas discussões.
Referencias
bibliográficas