Violência psíquica e passividade pulsional na adicção

 

Vanuza Monteiro Campos Postigo

 

 

 

Introdução

            Na atualidade, está havendo aumento da freqüência de quadros clínicos onde nos deparamos com um sujeito que apresenta uma problemática marcada por atuações e passagens ao ato que convocam principalmente o corpo em detrimento da representação. Encontramos hoje na clínica um número significativo de quadros psicopatológicos diversos daqueles das “neuroses clássicas”. Trata-se de casos caracterizados por forte empobrecimento da fantasia, que resistem, de certa forma, à técnica da associação livre, com ausência de um delineamento claro do sintoma e que apelam a mecanismos compulsivos.

Estes padecimentos psíquicos não seriam inéditos, mas estariam assumindo no cenário contemporâneo um lugar de destaque; afinal esses sujeitos vêm sendo objeto de estudo nas últimas décadas, então denominados como “casos difíceis”. Desta maneira, a psicanálise vem sendo convocada a tomar como objeto de investigação o significativo incremento da freqüência de “casos difíceis”, de patologias psicossomáticas e adicções, bem como outros quadros que envolvem uma dimensão compulsiva e disruptiva. São sujeitos que apresentam uma diferente configuração na clínica, com predominante esvaziamento de sua interioridade, com tendência a atuações, e resistentes ao método de intervenção concebido por Freud, casos estes que vêm sendo trabalhados majoritariamente no campo de estudo dos estados limites, em cuja categoria podemos englobar diversas configurações clínicas, entre elas a adicção.

Iremos apresentar, em linhas gerais, alguns aspectos de nossa Tese de Doutorado, dedicada ao estudo da adicção, patologia dos estados limites, em uma análise que procurou contemplar a psicopatologia, a metapsicologia e a clínica. Esse quadro clínico apresenta-se de maneira insistente no contemporâneo, onde observamos um sujeito que apresenta as mais diversas formas de relacionamento adictivo. Em todas as variações da adicção, aos mais diversos objetos, destaca-se um modo de relacionamento compulsivo com um determinado objeto que assume lugar de prevalência na vida do sujeito, permitindo que se considere a adicção como uma patologia dos limites e da separação do objeto (JEAMMET, 2000, p. 103).

Iremos aqui destacar a questão do traumático que se encontra na base de funcionamento e de compreensão dos mecanismos psíquicos envolvidos na adicção, sublinhando uma paradoxal situação na qual o sujeito da adicção se encontra, transitando num eixo atividade/passividade nos planos intra/interpsíquicos. Em seguida vamos nos voltar para uma breve análise do modo de relação com o objeto, utilizando a noção de paixão como ferramenta metapsicológica.  Vamos então finalmente considerar alguns aspectos envolvidos na constituição desse modo de relação com o objeto, originado nas relações primárias, que assume características particulares na adicção.

 

 

A definição da addicão

O termo “adicção” provém do latim addictu, dos tempos da República Romana que significa “escravo por dívidas”, denominando o homem que, para pagar uma dívida, se convertia em escravo por não dispor de outros recursos para cumprir o compromisso contraído (GURFINKEL, 1995, p. 109). No Dicionário Aurélio adicção (1996), significa "adicto" – que é na verdade um adjetivo – e diz respeito a um sujeito: 1.Afeiçoado, dedicado, apegado. 2. Adjunto, adstrito, dependente; ou então 3. Em medicina é quem não consegue abandonar um hábito nocivo, mormente de álcool e drogas, por motivos fisiológicos ou psicológicos. Daí viria a expressão de indivíduo adicto.

Mas queremos precisar que, em nossa abordagem, a questão não se refere a uma dependência psíquica relacionada apenas a uma droga e às suas conseqüências físico-químicas. Queremos enfatizar como a relação com o objeto, com qualquer objeto, pode assumir um papel prevalente no psiquismo do sujeito adicto, e quando, a partir de então, esse objeto “é como uma droga, não podemos passar sem” (INGOLD, 1982, p. 52). É a sujeição ao objeto que ganha ênfase em nossa análise da adicção e, conseqüentemente, os aspectos envolvidos nessa relação.

Entende-se, desta maneira, que o modo de relacionamento adictivo pode assumir muitas formas, visto que o objeto da adicção pode se referir a um objeto tóxico (álcool, drogas), a um objeto a-tóxico (comida, jogo), a uma forma de relacionamento com uma determinada atividade, a um modo de relação com uma pessoa, etc., adotando, enfim, as mais variadas configurações.

A dimensão compulsiva da busca do objeto é uma das principais características da adicção e que aparece de forma violenta: trata-se de uma relação na qual existe uma escravidão de um sujeito a um objeto, que possui um caráter “imperativo”, obrigatório, que domina a relação e compele o sujeito a buscar incessantemente um mesmo objeto.  Destacamos, além do aspecto de sujeição ao objeto, outra importante característica no quadro da adicção, que concerne ao estado no qual o sujeito se encontra: entregue ao seu pulsional excessivo que o submete e o apassiva. Vemos assim que na base de funcionamento psíquico da adicção encontramos o traumático.

 

 

A questão do traumático na adicção

Sabemos como a partir de determinado momento Freud foi se deparando com fenômenos clínicos que o fizeram trazer de volta para o centro de sua teorização o trauma, questão que se tornou fundamental na compreensão do funcionamento subjetivo. A análise de fenômenos como a reação terapêutica negativa, os sonhos traumáticos, a compulsão à repetição, entre outros, o levaram a postular a existência de uma pulsão de morte funcionando no aparelho psíquico (1920), trazendo a figura do trauma, re-significada agora como sendo de origem interna e pulsional. A partir de então, apresenta-se na teoria freudiana um outro modo de funcionamento psíquico, além do princípio do prazer, assim como surgem os limites da representação a partir da força de uma pulsão que não se inscreve no aparelho psíquico.

Na patologia da adicção o sujeito se encontra atravessado pelo excesso pulsional transbordante que o submete a uma violência psíquica advinda de seu próprio pulsional não-ligado, passividade pulsional que se encontra na base de seu funcionamento psíquico. A esta precariedade de recursos egóicos corresponde a utilização de defesas arcaicas, maciçamente evocadas por estes sujeitos. Uma vez que se encontra em uma radical fragilidade e sem a capacidade de utilizar recursos egóicos elaborados de defesa, o sujeito faz uso de defesas primitivas e radicais. Encontramos aí a maciça presença de recursos arcaicos utilizados pelo sujeito como a passagem ao ato e fenômenos que envolvem uma dimensão disruptiva e compulsiva, tornando clara a compreensão da denominação da adicção como patologia do ato.

Estes são aspectos fundamentais na elucidação da questão dos limites da representação envolvida na adicção, bem como a correlata presença de um excesso pulsional e toda a problematização decorrente da exposição deste sujeito ao traumático. Observamos aí o caráter de passividade pulsional que destacamos na adicção, em um plano intra-psíquico, pelo assujeitamento do ego ao pulsional excessivo, bem como pelo assujeitamento ao um objeto que se torna obrigatório, como vimos na própria definição da adicção.

O fenômeno da compulsão à repetição nos permite analisar o caráter de violenta dominação, da passividade sob a qual se encontra o sujeito na adicção, com a predominância da pulsão de morte no psiquismo e com um modo de funcionamento psíquico além do princípio do prazer. Esse mecanismo vem clarificar esse modo de funcionamento que compele, escraviza o sujeito e o faz retornar a um mesmo objeto.

Por outro lado, através desta mesma noção de compulsão à repetição, encontramos o aspecto de atividade que se encontra presente neste quadro clínico, como uma ação ante o traumático e como a única possibilidade de reação a esse assujeitamento, que se daria por meio de uma tentativa de dominação dessa pulsão. Em nossa compreensão, a compulsão à repetição é uma ação extrema, algo que o sujeito age para tentar se desfazer do insuportável; é uma tentativa de dominação da força pulsional.

Entendemos que o fenômeno da compulsão à repetição, que parece “manifestar-se tanto como um comportamento ativo quanto como uma experiência passiva” (SANTOS, 2002, p. 102), surge como uma tentativa por parte do sujeito – dominado na relação absoluta com o objeto – de assenhorear-se da situação e inverter a situação de servidão, nessa dupla dimensão de dominar/ser dominado, de ser o senhor/escravo simultaneamente. Vemos aí um tipo de resposta que o sujeito age na adicção na tentativa de reverter a violenta passividade pulsional na qual se encontra, uma tentativa radical do sujeito re-agir ao inassimilável, uma forma de – na atividade da passagem ao ato, no ato da adicção – reverter a situação de passividade na qual se encontra, submerso pelo excesso pulsional, assolado pelo traumático.

 

 

A relação de paixão como expressão do traumático

Mencionamos como a adicção é considerada uma “patologia da relação”, colocando em relevo a importância da modalidade da relação de objeto e do papel que o objeto assume na vida do sujeito da adicção. Cuidadosos em contemplar um estudo da voltado para a dimensão pulsional, desenvolvemos essa análise tanto do ponto de vista dinâmico como do econômico e, atentos ao tipo de relação com o objeto na adicção, utilizaremos a noção de paixão como ferramenta para nos auxiliar na compreensão da espécie de laço que une o sujeito a apenas um mesmo objeto.

Recorremos à etimologia para elucidar melhor a noção de paixão e encontramos duas origens para a palavra: uma grega e outra latina. “Na origem grega, pathos, paixão é associada a algo assustador e misterioso, que é interno ao homem e o domina. Na origem latina, passione, o homem é vítima passiva da paixão, mas ela é uma força externa, recebida sem resistências” (MAPURUNGA, 2003, p. 133).  Essas origens, por um lado, reforçam na origem passione a força pulsional ante a qual a assimetria não permite uma resposta eficiente; por outro lado, evocam em pathos a dimensão do estranho, da estraneidade – do além do princípio do prazer e da presença da radical alteridade interna  – e por aludir à passividade quase absoluta na qual o sujeito se encontra ante esse estranho externo/interno.

Neste modelo de relacionamento encontramos o caráter de desencontro, de desmedida de investimento no objeto, característica da paixão, em que se evidencia a presença do transbordamento psíquico e do assujeitamento à pulsão: é a própria expressão da absoluta passividade ante um objeto. Uma paixão mortífera, como denominamos, atravessada pelo pulsional mortífero, debilitando a capacidade do sujeito da adicção de fazer frente à invasão que o objeto promove e dele se discriminar.

 

 

As relações primárias: a impossibilidade de separação

Na busca de compreender como que se constituiria essa relação de paixão com o objeto, que se torna o único possível ao sujeito da adicção, nos voltamos para o estudo das relações primárias. Encontramos a indicação que essa relação de paixão tem sua origem nos primórdios da constituição da subjetividade e nos centramos no pensamento de Joyce McDougall para aprofundar estes estudos. Embora McDougall desenvolva notoriamente uma vasta teorização sobre a psicossomática, esta autora traz também um importante estudo sobre as relações primárias e traz ricas contribuições para a compreensão do lugar que o objeto assume para sujeito da adicção.

McDougall (1989) sustenta que o relacionamento inicial mãe-filho pode ser decisivo para estabelecer os fundamentos de determinadas modalidades de funcionamento psíquico, já que a realidade externa mais antiga de um bebê é constituída pelo inconsciente de sua mãe, por sua vez, estruturado, em grande parte, por seus próprios pais e suas próprias experiências infantis. Nos primeiros meses de vida, antes mesmo de ter uma representação clara de sua imagem corporal, o bebê não conseguiria vivenciar seu corpo ou o de sua mãe senão como unidade indivisível (Id., ibid., p. 11). E nesse momento, em um tempo arcaico de constituição da subjetividade, faz-se crucial a questão da discriminação do outro materno, discriminação que depende diretamente da qualidade da presença dessa mãe, assim como do modo como ela vai conduzir esta relação.

Joyce McDougall entende que o comportamento adictivo teria origem principalmente na relação mãe-bebê, quando a mãe sentir-se-ia fusionada ao bebê e criaria uma relação de dependência do bebê à sua presença como um objeto do qual não é possível se discriminar. Encontramos aí a relação do sujeito infante com uma mãe que não foi capaz de desempenhar a sua função materna, dificultando a constituição do mundo interno da criança, com as representações maternas – e, mais tarde, paternas – cuidadoras, capazes de conter e manejar seus estados de sofrimento psíquico.

Para esta autora, existiria uma falha na internalização da função materna na adicção, uma mãe que falha em sua função contenedora e estruturante, onde ela mesma promove um excesso pulsional, em um incremento de excitação para o qual o sujeito não consegue representação. E é a partir dessa argumentação que McDougall explica que por trás de toda organização adictiva, encontraríamos a mãe arcaica, a mãe-droga, aquela que não pôde ser interiorizada de maneira estável pelo infante que buscaria num objeto do mundo exterior o desempenho do papel do objeto interno, insuficiente em sua função (Id., 1989, p. 227). Assim, os objetos da adicção teriam como função preencher a função maternante que teria falhado, ou melhor, preencher os sujeitos adictos que teriam fracassado em sua tentativa de introjetar a função materna, decorrente da falha materna.

 

 

Considerações finais

Visamos nesta breve apresentação destacar alguns aspectos pesquisados em nosso trabalho de doutorado sobre a relação de paixão que se estabelece na adicção e da passividade pulsional aí envolvida. Procuramos contemplar a questão do tipo de relação que se estabelece com um determinado objeto que assume lugar de prevalência e de primazia na vida do adicto.

Destacamos como a adicção é uma patologia de relação, atravessada pelo traumático e na qual o sujeito se vê submetido à violência psíquica advinda do transbordamento de um pulsional interno não ligado, deixando o ego submetido. Vimos como a esta fragilidade de recursos egóicos corresponde a utilização de defesas primitivas e modos precários de resposta que o sujeito consegue agir. Pudemos assim entender como o mecanismo de compulsão à repetição, modo característico de funcionamento na adicção, assume um caráter de resposta, como algo que o sujeito age, uma atividade para fazer face ao traumático.

Observamos como aí se estabelece uma relação de paixão, de passividade ante a um objeto ao qual o sujeito se sente submetido e o qual busca obrigatória e compulsivamente. Relação esta que se constitui nas relações primárias, em uma relação onde a discriminação sujeito/objeto é precária, decorrente de uma falha na função - e na introjeção – da função materna. O sujeito se encontraria, na constituição de sua subjetividade e da relação com o objeto, exposto ao fracasso da contenção do transbordamento pulsional relacionado à insuficiência dos cuidados maternos que, nessa violenta falha, deixaria como saída ao infante a construção de um objeto adictivo, um objeto de paixão, para fazer face ao traumático. Finalizamos nossas considerações esperando que estas possam remeter a novas pesquisas e possam gerar ricas discussões.

 

 

Referencias bibliográficas 

  • FREUD, Sigmund (1920) - “Além do princípio de prazer”, v. XVIII in Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas, Rio de Janeiro: Imago, 1987.
  • GURFINKEL, Décio (1995) - A pulsão e seu objeto-droga: estudo psicanalítico sobre a toxicomania. Petrópolis: Vozes
  • INGOLD, R. (1982) - “L’état de dépendence”. In: OLIVENSTEIN, Claude (org.) – La vie du  toxicomane. Paris: PUF.
  • JEAMMET, Philippe (2000) - “Les conduites addictives: un pansement pour la psyche”. In: LE POULICHET, Sylvie (org.) Les addictions, Paris: PUF.
  • MAPURUNGA, Juçara Rocha Soares (2003) - TPM: tensão, paixão e mal estar: a subjetivação de uma mulher em tensão pré-menstrual. São Paulo: Escuta.
  • MCDOUGALL, Joyce (1989) - Teatros do corpo: o psicossoma em psicanálise. São Paulo: Martins Fontes, 1996.
  • SANTOS, Lúcia Grossi (2002) - O conceito de repetição em Freud. São Paulo: Escuta, 2002